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    Com a pandemia, comida de avião é servida em terra firme – e faz sucesso

    Com a queda dos voos, companhias aéreas tiveram de se reinventar - e CNN aproveita para analisar o porquê que a comida de avião é tão odiada e adorada ao mesmo tempo

    Getty Images

    Will Nobleda CNN

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    “Gororoba nas alturas”. “Abominável café da manhã”. “Quase intragável”.

    Zombar do baixo nível da culinária servida nas alturas é uma piada universal – uma que evoca aquela pergunta de início de comédia de stand-up: “Qual é o problema com a comida de avião?”

    As teorias sobre sua inferioridade são abundantes. As refeições são preparadas em cozinhas industriais próximas aos aeroportos. Elas são imersas parcialmente em líquido (dando a elas uma vaga ideia de manutenção) e parcialmente congeladas, antes de serem disparadas para a imperfeição a 10 mil metros de altura.

    Temperos e molhos são usados com parcimônia para apelar a paladares facilmente ofendidos. A pressão da cabine diminui a sensação do olfato, e juntamente como o barulho dos motores do avião, diminui o prazer.

    Todas essas teorias são válidas. Mas com quase dois anos de pandemia de Covid-19, quando viagens aéreas viraram uma mercadoria rara, estaríamos começando a apreciar o que tínhamos?

    Estaríamos começando a sentir saudades do tão maldoso grude dos céus?

    De frango frito frio a caviar de beluga

    Jantar nas alturas não era complicado no passado. Richard Foss, historiador de culinária e autor do livro “Food in the Air and Space – The Surprising History of Food and Drink in the Skies” (Comida no Ar e no Espaço: A História Surpreendente da Comida e Bebida nos Céus, em tradução livre), diz que quando um voo comercial começava, em 1920, os passageiros se resolviam com sanduíches, saladas ou talvez um pedaço de frango frito gelado.

    “As aeronaves não tinham cozinhas”, diz Foss, “então a única coisa que podia ser servida era um almoço tipo piquenique na temperatura ambiente, com bebidas vindas de garrafas térmicas”.

    O primeiro voo gastronômico chegou em aeronaves como o dirigível LZ 127 Graf Zeppelin. Um cardápio de almoço de 30 de maio de 1930 casualmente oferecia caviar de beluga em torradinhas, seguido de bife refogado com legumes frescos e batatas ao creme, sendo apresentados no mais fino conjunto de louças, claro.

    Era também o trabalho de um único homem limitar o sobe e desce da proa do dirigível, para evitar que garrafas de vinho tombassem sobre as mesas do salão.

    Tais extravagâncias incomensuráveis logo abriram caminho para outras formas de transporte flutuante: os hidroaviões “Clipper” da Pan Am assavam pedaços inteiros de carne no ar, antes de servir aos passageiros em um salão de jantar privativo.

    Então, quando tudo deu errado?

    Alvo da Piada

    “Se você visse os anúncios… sete chefs fatiando um bife Wellington. Daí, quando você embarca em um avião eles te dão um pedaço morto de frango… Com os cravos ainda nos poros!”

    Aí está um pouco da comédia de Alan King. Nos anos 1950, ele se tornou um dos primeiros a observar as armadilhas da cozinha aérea (King fez tantas piadas sobre companhias aéreas que era comum ser processado por elas – algo que ele então colocava no seu próximo ato).

    A ironia é que quando King começou com essas piadas, a comida de avião ainda estava em uma grande trajetória ascendente.

    Mesma época quando a Northwest Orient Airlines criou um pseudo-lounge de coquetéis na sua aeronave “Stratocruiser”, salpicado com árvores bonsai e, e em seguida, passou camarões em palitos espetados em abacaxis frescos.

    Mesmo a bordo do famoso zepelim Hindemburg nos anos 1930 – cujo menu extravagante incluía sopa de ninho de andorinha indiana, seguida de filé mignon com patê de fígado de ganso – muitos americanos aparentemente reclamaram que a cozinha era muito cremosa e rica.

    A comida de avião sempre teve seus detratores, e sempre terá. Isso não quer dizer que é sempre uma papa de revirar o estômago.

    As pessoas que amam comida de avião

    Para muitos, a culinária das alturas é algo a ser saboreado. O passageiro frequente Nik Loukas é o criador do Inflight Feed, onde ele posta, tweeta e publica no Instagram comentários e fotos das refeições aéreas que faz – já visitou mais de 150 companhias aéreas até agora.

    Seus comentários não são sempre entusiasmados – Loukas se lembra com certo desdém de um “hambúrguer de frango nadando no molho” de uma determinada companhia aérea ucraniana -, mas geralmente são muito positivos.

    A imensa oferta aérea sofreu um golpe em meados da década de 1970, quando a desregulamentação liberou as companhias aéreas para competir em preços, afetando o sabor mas mantendo uma certa qualidade. E não é preciso estar na classe executiva para descobrir algo que valha a pena comer.

    O próprio Loukas avalia pratos da classe econômica da Delta (que renovou seu serviço econômico pouco antes da Covid chegar), da Turkish Airlines (“bebidas e sobremesas inspiradoras”) e Emirates (“porções saborosas que são abundantes e incluem saladas frescas e sobremesas”).

    E ele não avalia apenas os pratos em si.

    Segundo Loukas, “na classe econômica é sempre interessante ver o que as companhias aéreas oferecem… Detalhes menores, como toalhas quentes, menus impressos, água engarrafada fazem diferença à experiência”.

    Ele não está sozinho em sua apreciação. Assim como há depoimentos que relatam os perigos da comida de avião, também há muitos outros apontando quais as melhores – desde berinjelas recheadas com carne moída, da Turkish Airlines, até o cheesecake de tangerina, da Qatar Airways.

    Talvez seja por isso que no ano passado, com os voos foram paralisados em todo o mundo, algumas pessoas continuaram consumindo comida de avião.

    Tem influenciador que já viajou por mais de 150 cias aéreas para provar diferentes tipos de refeições de bordo/ Getty Images

    Comida de avião servida em terra firme

    Quando a pandemia se espalhou e ficou claro que a maioria de nós não entraria em um boeing tão cedo, as companhias aéreas e seus fornecedores ficaram sobrecarregados com os suprimentos excedentes.

    Algumas se organizaram, vendendo o excesso de quiches de espinafre e pastrami, wafels holandeses e bandejas de salgadinhos de queijo para os clientes em terra firme.

    Garuda Indonesia até enviou a bandeja de plástico e os talheres – não exatamente ecológico – mas com certeza para criar uma experiência autêntica.

    O “Wall Street Journal” classificou aqueles que aceitaram a oferta como “loucos”. “Nostálgico” poderia ter sido o mais apropriado. Talvez tenha sido uma nostalgia semelhante que levou a uma corrida online para comprar louças, talheres – e até toalhas quentes – quando a British Airways anunciou que estava vendendo uma parte de seu estoque.

    Embora os esforços da Garuda Indonesia tenham gerado reações negativas, o conceito de comida de avião servida em terra firme é mais lucrativo do que se possa imaginar.

    Foi noticiado que a marca de alimentos Santan da AirAsia está procurando expandir de 15 lojas, na Malásia, para 100 franquias em todo o mundo. O plano é vender essencialmente as mesmas receitas atualmente servidas nas alturas – incluindo rendang, nasi goreng e nasi lemak curries.

    A culinária da Santan é de certo calibre, é claro – e vai contra a regra fundamental de “temperar demais” o molho. Mas se isso der certo, o que impedirá outros fornecedores de companhias aéreas de aumentar seu estoque, ramificando e seguindo os rastros da Santan?

    Fazendo pedidos na Lufthansa

    O que a comida das companhias aéreas faz por nós? É uma distração do tédio de um longo voo; quem decidiu que a odeia, pode pelo menos copiar o autor David Barry e usá-la como “uma forma de entretenimento a bordo, em que o objetivo é adivinhar o que é”.

    Na verdade, muitas vezes não é tão ruim – contanto que não esperemos uma versão a jato do Ritz (mesmo os menus elaborados por chefs com estrelas Michelin como Gordon Ramsay e Daniel Boulud têm suas limitações uma vez que estejam nas nuvens).

    Mais do que tudo, a comida de avião é o primeiro sabor de uma nova aventura. Quer esteja em um Lindbergh mordiscando sanduíches a caminho de Paris; um passageiro da Cathay Pacific devorando um bolo flame-baked Alasca; ou uma alma infeliz vendo seu hambúrguer murchar em sua própria gordura – esta é a porta de entrada gastronômica para refeições melhores e mais fascinantes que o aguardam assim que pousar.

    Como a Covid-19 e as mudanças climáticas ameaçam um tipo de viagem que se tornou de segunda natureza, alguns de nós estão agora secretamente (ou não tão secretamente) desejando exatamente a mesma coisa para a qual torcemos o nariz nos “tempos de antes”.

    Dependendo de como as coisas seguirem, em 10 anos, poderíamos estar todos nas nossas últimas férias em casa, levando a família para uma refeição suntuosa na Emirates, ou tomando um gelado e fazendo pedidos em um Lufthansa.

    *Will Noble é editor do Londonist, um site sobre Londres.

    *Este texto é traduzido. Confira o original em inglês, aqui

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