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    Dia Mundial Sem Carne: mercado cresce e se adapta a novos hábitos

    Estima-se que em 2035 o mercado global de carnes vegetais tem potencial de atingir US$ 370 bilhões. No Brasil, pesquisas apontam que população tem o desejo cada vez maior de reduzir o consumo de proteína animal

    Alimentação sem proteína animal pode ser muito variada, ao contrário do que muitos acreditam
    Alimentação sem proteína animal pode ser muito variada, ao contrário do que muitos acreditam Pexels

    Daniela Caravaggido Viagem & Gastronomia

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    O que antes era tratado como uma questão de minorias vem se tornando hábito cada vez mais presente no Brasil e mundo afora. O vegetarianismo e veganismo são a escolha de vida de muita gente, há muito tempo – e isso não é novidade.

    A discussão, evolução e adaptação do mercado para esse público, entretanto, vêm sendo fomentadas gradativamente – ganhando corpo e trazendo informação para uma parcela maior de pessoas a cada ano.

    Neste domingo, 20 de março, é comemorado o Dia Mundial Sem Carne. E os números não deixam mentir que a exclusão da proteína animal em algum grau é cada vez mais recorrente no cotidiano de muita gente. Seja por saúde, por compaixão aos animais, por gosto ou prezando pelo meio ambiente, isso é resultado de iniciativas de conscientização e também de novas informações acerca do tema.

    “Meus amigos me chamaram para jantar fora, mas não tem nada no cardápio que eu possa comer.” ”Fui convidada para conhecer uma nova hamburgueria, mas não como carne.” “Vai ter um queijo e vinhos na casa do meu namorado, mas não como nada derivado de animais.”

    Por muitos anos, essas frases representavam problemas quase diários vividos por veganos e vegetarianos em seus círculos sociais. Eles, que optaram por um estilo de vida e uma alimentação baseada em vegetais, muitas vezes eram vistos como chatos, frescos ou estranhos por amigos e familiares.

    “Eu tenho 49 anos e não como carne desde os 17. As pessoas à volta acham que você vai ficar doente, fraco e que vai morrer a qualquer momento”, conta Ricardo Laurino, hoje presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira.

    “Mas quando as pessoas começam a ir atrás de informação, percebem que é totalmente o oposto. A alimentação à base de vegetais, sendo consciente, traz inúmeros benefícios à saúde. Não é simplesmente comer macarrão e batata frita, como muitos acreditam. É ir atrás do conhecimento e entender os pontos positivos que esse hábito traz para o corpo e, principalmente, para o meio ambiente e os animais”, ressalta.

    Massas, pizzas, hambúrgueres e outros alimentos ganham suas versões sem origem animal / Pexels

    Os impactos ambientais

    Entre os impactos ambientais, a emissão de gás metano é uma das mais preocupantes segundo os pesquisadores. Vitor Clemente, gerente de investigações da Mercy For Animals (MFA) no Brasil, conta que as atividades pecuárias representam cerca de 30% da emissão de metano (CH4) no mundo.

    O gás é produzido no aparelho digestivo dos animais, principalmente dos bovinos, e resulta da fermentação do alimento, e, como explica Clemente, tem um poder de aquecimento global 86 vezes maior que o dióxido de carbono (CO2). “Se a gente quiser frear as mudanças climáticas, precisamos urgentemente abordar essa questão”, afirma.

    “Outro grande problema é a quantidade de água usada por esse setor. A agropecuária responde por quase 80% do consumo de água doce no Brasil. Apenas a quantidade de água destinada ao abastecimento animal, que é de cerca de 10% do total consumido, é maior que a quantidade de água destinada ao abastecimento humano nas mais de cinco mil cidades brasileiras”, pontua.

    Segundo ele, no Brasil, existem cerca de 220 milhões de bovinos – número maior que o de pessoas – e uma quantidade “imensa de porcos, frangos e galinhas, que precisam beber água”. “Enquanto a demanda por carne e outros produtos de origem animal não diminuir, o problema [de falta de água] continuará e tende a se agravar”, diz.

    Muitas organizações foram surgindo ao longo dos anos e lutam por essa causa por meio de uma série de iniciativas. Uma delas é a Mercy For Animals, que enfatiza que se dedica “a erradicar o atual sistema alimentar e substituí-lo por um que seja não apenas gentil com os animais, mas essencial para o futuro do nosso planeta e para todos que o compartilham”. Segundo o site da organização, mais de 42 milhões de animais por ano são impactados por meio de suas ações corporativas

    Meio ambiente é diretamente impactado com o mercado de proteína animal, segundo especialistas / Pexels

    Os números no Brasil

    A pesquisa mais recente sobre o número de brasileiros que se consideram vegetarianos é de 2018, realizada pelo Ibope. O levantamento apontou que 14% (cerca de 30 milhões de brasileiros à época) se reconheciam nessa categoria.

    Nas regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Recife e Rio de Janeiro esse percentual sube para 16%. Esses valores, em comparação com uma pesquisa feita em 2012, tiveram um aumento expressivo de 75% nesse número.

    Não há, no entanto, uma especificação quanto aos veganos – aqueles que adotam essa opção como um estilo de vida e não consomem nenhum produto que possa resultar, de alguma maneira, da exploração animal, sejam alimentos derivados ou produtos testados neles.

    Uma pesquisa mais atual, de 2021, feita pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), encomendada pela SVB, apontou que 46% dos brasileiros deixaram de comer carne por vontade própria ao menos uma vez na semana. O número é bem próximo do estudo The Good Food Institute (GFI), que mostrou que, em 2020, 49% dos brasileiros já estavam reduzindo esse consumo de alguma forma.

    Segundo pesquisas, brasileiros estão reduzindo o consumo de proteína animal pelo menos uma vez na semana / Pexels

    Também em 2020, a Ingredion realizou uma pesquisa em parceria com a Consultoria Opinaia em cinco países da América Latina (Brasil, Argentina, Chile, Peru e Colômbia). O Brasil foi o país com maior índice daqueles que buscam uma alimentação mais saudável e nutritiva nos produtos vegetais (90%).

    De maneira geral, todos foram muito receptivos em suas respostas. Duas em cada três pessoas ouvidas pelos pesquisadores estariam dispostas a consumir menos proteína animal.

    Nesse meio, as pessoas que têm a intenção de reduzir o consumo de proteína animal, mas não a tiram totalmente do seu dia a dia, são chamadas de flexitarianas. Atualmente, elas representam quase um quarto da população mundial – 23% em 2021, um crescimento de 2% em relação ao ano anterior. A maior motivação por trás da mudança nos hábitos alimentares, segundo a pesquisa, é a saúde.

    Já o IPC Maps, especializado em potencial de consumo brasileiro, nos últimos anos o consumo de verduras e legumes pelos brasileiros sofreu algumas variações, tendo aumentado de R$ 16,9 bilhões em 2017 para R$ 17,7 bilhões em 2021. O consumo de frutas também vem crescendo, passando de R$ 22,3 bilhões em 2017 para o recorde de R$ 25,4 bilhões em 2021.

    Investimento e movimentação do mercado mundial

    Uma análise da Euromonitor Internacional, empresa de pesquisa de mercado, apontou a consolidação das proteínas alternativas como importante categoria de consumo e seu contínuo crescimento nos próximos anos. O mercado mundial movimentou USD$ 9 bilhões entre os anos de 2015 e 2020, considerando substitutos de carne e alternativas ao leite.

    No Brasil, essa indústria teve um crescimento nos últimos cinco anos e passou de R$ 229,4 milhões para R$ 572,7 milhões de faturamento no que diz respeito a apenas substitutos de carne e frutos do mar.

    A expectativa é que ele chegue à marca dos R$ 1,7 bi em 2026. Na mesma categoria, a nível mundial, o mercado passou de US$ 2,5 bilhões para US$ 5,5 bilhões de 2016 a 2020. Para 2026, estima-se que irá faturar US$ 9,2 bilhões.

    Segundo um outro estudo do The Good Food Institute (GFI), o ano de 2021 foi recorde de investimento no ecossistema de empresas de alternativas aos produtos de origem animal. Neste setor estão incluídas não apenas empresas de proteína vegetal, mas também as de carne cultivada. Desde 2020, foram investidos quase US$11,1 bilhões no setor, sendo USD$ 8 bilhões (73%) após o início da pandemia do coronavírus.

    A análise foi realizada utilizando a plataforma PitchBook Data, e mostrou que empresas globais do setor receberam US$ 5 bilhões em investimentos em 2021. Este número é 60% maior que os 3,1 bilhões registrados no ano anterior e cinco vezes mais que o $1 bilhão investido no setor em 2019. Estima-se também que o mercado global de carnes vegetais atinja entre US$ 100 bilhões e US$ 370 bilhões até 2035.

    Diferenças entre vegetarianos, veganos e alimentação plant based

    É muito comum e fácil cair na “definição” de que o vegetarianismo, veganismo e a alimentação plant based possuem os mesmos conceitos, o que está errado e ultrapassado. Nessas definições, entretanto, há uma série de particularidades, que muitas vezes são polêmicas até mesmo dentro das comunidades, o que torna, de fato, o assunto complexo.

    De forma geral, a principal diferença entre os termos é que, enquanto o vegetarianismo diz respeito à exclusão da proteína animal da alimentação, o veganismo é um estilo de vida que recusa todo e qualquer tipo de derivado de exploração animal em seu dia a dia.

    “O veganismo vai muito além de uma alimentação, ele se dedica também a não utilizar nenhum item que tenha algum derivado animal ou que faça testes em animais em sua rotina – desde alimentação até roupas, produtos de limpeza, cosméticos. O vegetariano pode incluir alimentos de origem animal (por exemplo ovos e laticínios) ou não, tendo algumas variações (ovo-lacto vegetariano, vegetariano estrito, lacto vegetariano, entre outras especificações)”, explica a nutricionista Deborah Lestingi

    Quem acha que alimentação vegana se resume à salada está enganado. Bacalhoada vegana sem proteína animal, do restaurante Merlino / Divulgação

    “Já a alimentação plant based também é rica em alimentos vegetais e não compactua com o sofrimento animal. Mas a principal diferença é que a plant based é uma alimentação 100% saudável. Ou seja, não inclui no cardápio produtos industrializados (mas apenas opções saudáveis, naturais). Ela é realmente baseada nos alimentos que a terra oferece”, completa.

    “Not Dog” é um dos sanduíches plant based da lanchonete Ganic Lab, no Rio de Janeiro / LipeBorges (lipeborges.com.br)

    Os restaurantes e suas adaptações

    O conceito de restaurante vegetariano ou vegano não é mais o mesmo de anos atrás, como explica Ricardo Laurino, presidente da SBV. O que antes era um termo exclusivo para estabelecimentos que só ofereciam esse tipo de alimentação, hoje pode ser estendido às tradicionais e grandes redes, que passaram a oferecer essas três opções em seus cardápios.

    São muitos os que reproduzem alimentos amados pelos brasileiros em versões sem proteína animal. Coxinha, hambúrguer, pizzas, massas, sanduíches de todos os tipos são só alguns deles.

    “As pesquisas mostram que não ter opção vegana, vegetariana ou plant based em restaurantes é um risco. Isso acaba gerando um poder de veto, pois se um integrante do grupo não come proteína animal, logo aquele grupo não frequentará o estabelecimento. A Sociedade Vegetariana Brasileira criou um programa em 2017 para incentivar esses locais a oferecerem opções para esse público, e o resultado tem sido muito satisfatório”, ressalta.

    O programa da SVB é o Opção Vegana, que já ajudou de forma gratuita mais de 3 mil estabelecimentos a inserirem opções veganas em seus cardápios. O Escolha Veg, da organização Mercy For Animals (MFA), tem o mesmo intuito. De forma gratuita, eles também ajudam na elaboração dessas opções, com capacitação teórica e prática, e ainda dão apoio na divulgação. Grandes marcas já foram impactadas com essas iniciativas.

    Uma forma legal de descobrir restaurantes que possuem opções veganas, vegetarianas e plant based é o aplicativo Happy Cow, que existe desde 1999. São mais de 156.000 estabelecimentos em mais de 180 países cadastrados na plataforma. No aplicativo, é possível fazer buscas sem esforço por meio de filtros, pelos tipos de comida e região, por exemplo. Ele diz se o restaurante exclui totalmente a proteína e derivações de animais ou se oferece opções.

    “O mercado está passando por uma democratização, e isso é muito legal. As pessoas estão começando a perceber que qualquer um pode ser vegano, que não é difícil e muito menos elitista, como muitos disseram por muito tempo. Com a informação e aumento de opções, a população tem capacidade de escolha”, exalta o presidente.

    A SBV, além do programa Opção Vegana, criou ao longo dos anos inúmeras iniciativas para a conscientização da redução da proteína animal. Em escolas da prefeitura de São Paulo, por exemplo, ajudou a implementar um dia sem carne e já serviu mais de 80 milhões de merendas à base de vegetais.

    “Estamos empenhados em ações de conscientização que estimulem as pessoas a mudarem um pouco seus hábitos. Se houver uma mínima mudança, isso já traz um impacto muito grande em toda cadeia. A campanha da segunda-feira sem carne é mundial, mais de 40 países participam, e é muito legal saber que o Brasil é o país mais ativo de todos”, enfatiza Laurino.

    O antigo e o novo em busca do mesmo objetivo

    Não há uma pesquisa sobre o número de estabelecimentos no Brasil ou no mundo que se declaram vegetarianos. O que tem sido observado e dado como certo pelos players do mercado é o crescimento constante de locais que oferecem pelo menos uma opção de prato sem proteína animal ou derivados, sejam eles por essência ou por adaptação por demanda.

    É o caso do Galpão da Pizza, que há 27 anos está no bairro da Pompéia, em São Paulo. O negócio é de uma família italiana, que trouxe sua expertise do país das massas. Os caminhos escolhidos na trajetória, porém, nem eles poderiam imaginar que fariam tanto sucesso.

    “Percebemos a mudança de costume e o aumento da vontade dos clientes de comer menos proteína animal. Começamos a pensar em como criar uma pizza gostosa, mas uma coisa é clara: não se faz uma pizza gostosa sem queijo. Então, desenvolvemos nosso próprio queijo vegano, à base de leite de castanha de caju. Depois, fomos agregando carnes vegetais, como calabresa, presunto, frango e criamos sabores no cardápio que remetiam aos sabores tradicionais”, conta um dos donos.

    Galpão da Pizza, em São Paulo, oferece opções veganas, como a de shitake com queijo à base de castanha de caju Divulgação

    “Queríamos olhar para todos os públicos e abraçar todas as categorias: do vegano ao celíaco, trazendo opções para que essas pessoas pudessem estar no mesmo ambiente de seus amigos. Estudamos muito para chegar à fórmula final e deu certo. Fomos a primeira pizzaria a implementar isso em São Paulo”, ressalta.

    O sucesso foi tanto que a família começou a ser procurada por muitos estabelecimentos. Eles gostariam de saber de qual lugar vinha aquele queijo vegano tão gostoso. O resultado foi a criação de uma fábrica de queijo, que hoje atende 160 diferentes restaurantes no Brasil, entre eles hamburguerias e esfiharias.

    A família também abriu uma casa de massas, a Merlino, que oferece opções veganas de diferentes massas, molhos e queijos. Hoje, um em cada cinco clientes dos estabelecimentos procuram consumir os pratos sem proteína animal.

    Se, por um lado, a tradicional família italiana adaptou o seu negócio, novos restaurantes focados em uma alimentação saudável, vinda de produtos da terra, estão surgindo. Entre eles, a primeira lanchonete plant based do Brasil. Localizada no Rio de Janeiro, a Ganic Lab abriu as portas na pandemia e é comandada pela chef Dani Rosa.

    Daniela Rosa abriu a primeira lanchonete plant based do Brasil, com sanduíches saudáveis, sem proteína animal LipeBorges

    Dani, que traz na bagagem oito anos de experiência no mercado de tecnologia e eventos, resolveu há dois anos empreender naquilo que mais amava: a cozinha. O momento coincidiu com descobertas pessoais e a vontade de aproveitar um espaço que identificou como promissor. Após estudo de mercado e muita alquimia, em maio de 2021 abriu as portas daquilo que se tornaria seu trabalho diário.

    “Após assistir a alguns documentários sobre o tema e praticar ioga, comecei a olhar para dentro. Sempre fui ligada à tecnologia e enxergo meu corpo como uma máquina. Comecei a fazer uma mixologia sem derivados de animais e queria chegar a um produto que tivesse nutrientes e sabor. A cozinha vegana não tem nacionalidade. São releituras. Posso fazer versão de tudo o que quiser e manter uma essência naquele paladar que lembre uma referência”, ressalta a chef.

    Após adotar uma dieta reduzida em proteínas animais e perceber que muitos restaurantes ofereciam pratos, mas não sanduíches rápidos com preços acessíveis na versão vegetal, a chef entrou em um nicho diferente: o de lanchonetes. O sucesso foi rápido e o negócio teve um crescimento em oito meses. Agora, está na fase de transição para virar também um restaurante e bar, com ainda mais opções.

    “Acho que o meu grande diferencial é que não compro nada pronto. Produzo tudo do zero, com muita qualidade e cuidado naquilo que faço. A Ganic Lab tem como filosofia a culinária saudável e a conscientização de um mundo sustentável, de que tudo o que nosso corpo precisa vem da terra, e como consequência de boas escolhas, fomenta-se a sustentabilidade de todo o ecossistema”, enfatiza.

    BBQ Ganic, da chef Dani Rosa, leva hambúrguer feito apenas com ingredientes vindos da terra / LipeBorges

    Os benefícios à saúde e cuidados ao adotar uma alimentação vegetal

    Adotar uma alimentação vegetariana, plant based ou um estilo de vida vegano vem dos mais variados motivos. Márcia Dip, de 62 anos, por exemplo, nunca gostou do sabor de carne. Ela conta que era até engraçado quando ia a lanchonetes na época em que era adolescente. Pedia um pão com queijo, no máximo um pão com ovo. Os locais não sabiam nem precificar o seu pedido e achavam estranho uma menina daquela idade não comer as outras inúmeras opções oferecidas.

    Sua avó, árabe, recebia todos os netos com uma assadeira de kibe – Márcia disfarçadamente comia o mínimo. Na fase adulta, aquela velha preocupação dos amigos e familiares em eventos sempre a rondaram: “Mas você não vai comer carne? Então o vai comer?”. A resposta era simples: tudo, menos carne.

    “Hoje acho que o pensamento mudou um pouco, mas lembro que, se meu pai não comesse carne vermelha no almoço e no jantar, ele nem considerava uma refeição. As pessoas estão se acostumando e vejo como muito positivo esse movimento. Há muita opção e muita variedade na alimentação”, reforça Márcia.

    Para a nutricionista Deborah Lestingi, é preciso quebrar alguns mitos acerca do tema, como por exemplo, de que a alimentação à base de vegetais é insuficiente.

    “Geralmente associam que a pessoa é mais fraca, que tem mais dificuldade de ganhar massa muscular ou que não tem muita variedade naquilo que come, mas isso é um mito. A alimentação vegetariana equilibrada, orientada por um nutricionista, é uma alimentação muito mais saudável do que outras. Nela, você vai ter muito mais opções de fibras e fitoquímicos, que serão a base da sua dieta” ressalta.

    Deborah é formada em nutrição pela Universidade de São Paulo e adotou uma alimentação vegetariana há três anos. Viu neste período o movimento de pacientes em busca de reduzir o consumo de proteína animal aumentar em cerca de 30% e e aponta alguns cuidados que precisam ser tomados por aqueles que querem adotar esse tipo de dieta.

    “Ir a um nutricionista é muito importante. Apesar de ser uma alimentação mais saudável quando feita da forma correta, isso não pode ser considerado uma verdade absoluta. É preciso prestar muita atenção naquilo que é consumido. Muitos produtos se vendem como saudáveis, mas não são. É preciso ler rótulos e se atentar aos ingredientes”, aponta.

    “Outro cuidado que deve ser tomado é sobre o consumo de vitamina b12. Para uma alimentação vegetariana ser completa, ela precisa ter uma variedade de fontes proteicas a ponto de suprir os aminoácidos essenciais para o nosso corpo”, completa.

    Para Deborah, não há uma superioridade na alimentação vegetariana, mas sim benefícios importantes para o ecossistema como um todo.

    “Eu vejo essa maior variedade de nutrientes e uma procura maior pela alimentação saudável e mais natural como grandes benefícios. É um perfil de comida que tem um impacto ambiental menor, consumo menor de industrializados e valorização de pequenos produtores. Aqueles mais engajados e com uma preocupação real em sustentabilidade vão buscar as melhores opções de consumo, que causam menos impacto no meio ambiente e que são benéficas como um todo”, finaliza.

    Gustavo Feil, medico focado em nutrologia e medicina da longevidade, também viu o movimento de pacientes com esse objetivo aumentar em 35%.

    “O que vejo muito na prática clínica é que as pessoas estão cada vez mais conscientes. As crianças já estão rejeitando desde cedo a proteína animal, pois têm acesso direto à informação, principalmente pelas mídias sociais e YouTube. Olham o seu animal de estimação e fazem associação rápida em não comer uma carne.”

    “Falando em carne vermelha especificamente, ela não é de fácil digestão, então, as pessoas que começam a parar de comer um pouco já sentem uma diferença no trato intestinal. A maioria dos que têm interesse em tirar a proteína animal fala que quer parar por saúde. É preciso procurar um médico e um nutricionista para garantir que todos os nutrientes estejam equilibrados e seguir com suas ideologias”, finaliza.


     

     

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