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Tour gastronômico nada óbvio pelo bairro da Liberdade, em São Paulo

Habituada a passear pela região, Giuliana Nogueira, fotógrafa gastronômica especializada em vinhos, divide seus locais prediletos - e pouco conhecidos - por este que é o reduto japonês na capital

Bairro da Liberdade, em São Paulo
Bairro da Liberdade, em São Paulo Unsplash

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Bairro da Liberdade, reduto japonês em São Paulo, reúne casas que oferecem gastronomia típica (Foto: Unsplash)

Por Giuliana Nogueira*

Passear pelas ruas do bairro da Liberdade já era um hábito com mais de uma década, mas foi só em fevereiro de 2021, quando me mudei para a Bela Vista, que descobri que eu praticamente não conhecia a região vizinha onde hoje caminho diariamente esquadrinhando seus quarteirões. Então logo me animei quando me convidaram para escrever sobre esses lugares escondidinhos que descobri nos últimos meses.

Muitos deles abrigam não apenas sabores, mas também história e sonhos de imigrantes que trouxeram de suas terras natais receitas familiares.

Sopa de Carne do Senhor Lí

Minha caminhada começa lá na Rua Barão de Iguape, 36. Na Sopa de Carne do Senhor Lí não se aceita cartão de débito ou crédito. Pagamento só em dinheiro. Talvez por isso ele ache prudente fechar antes do anoitecer. Delivery? Até tem, mas nunca consegui pedir. Havia um número de telefone na porta, mas quando falei com o próprio senhor Lí que queria levar pra casa ele me disse “volta, traz família”.

A casa já tem 5 anos, ele 20 no Brasil, mas ainda é difícil entender a pronúncia. A especialidade do menu é a “sopa de carne” com macarrão feito na casa. Lámen para os íntimos. Mas não espere o tal ovinho gema mole e aquele tenro pedaço de barriga. Tendão, pedacinhos miúdos de costela de porco e uma sorte de outras proteínas. O caldo é maravilhoso, a estrela da sopa, com uma profusão de aromas em que cada base apresenta uma deliciosa e intrigante paleta de condimentos. Quando questionado sobre quais especiarias usa, o Sr. Lí se recusa a responder, faz de desentendido, sorri, vai limpar uma mesa, fechar a conta, cozinhar, afinal ele e a esposa fazem tudo na casa.

Na Casa 212, o proprietário vindo de Taiwan ensinou suas receitas ao chef boliviano, que oferece pratos típicos como o caldo de carne, panquequinha taiwanesa e o pão recheado com carne BaoZi (Foto: Giuliana Nogueira)

Casa 212

No quarteirão de trás, de aparência mais simples, funciona desde o início do ano a Casa 212, o proprietário vindo de Taiwan ensinou suas receitas ao chef boliviano. Recepcionada sempre com uma xícara de chá e um sorriso gentil do proprietário, nunca escolho, peço a sugestão. O Macarrão de carne é também um caldo extremamente saboroso com tenros pedaços de músculo. Não fica atrás a sopa de Won Ton, entre as favoritas. Para quem prefere “algo mais forte”, a sopa de pimenta e vinagre é a pedida. Mas não deixe de provar a famosa panquequinha taiwanesa e o pão recheado com carne BaoZi.

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Mooncake

Do outro lado da rua, na R. Fagundes, 220, fica a Mooncake, uma padaria com especialidades asiáticas. Entre elas, minha favorita é o mooncake de matcha de massa fininha recheada com uma porção equilibrada de doce de feijão. O de nozes é igualmente gostoso. Na dúvida, melhor levar um de cada.

Mooncake, padaria com especialidades asiáticas, oferece os famosos bolinhos que dão nome ao estabelecimento com diversos recheios, entre eles de macha e nozes (Foto: Giuliana Nogueira)

Doceria Hawei

E por falar em panificação oriental, há 17 ali na Liberdade, longe da fila dos hypados We Coffee e 89 Café está a Doceria Hawei. O casal de proprietários fica evidentemente mais confortáveis falando em seu próprio idioma. Além de também fazerem um farto e gostoso mooncake, o pastel de curry é um clássico delicioso, com carne e especiarias, casquinha folhada e o recheio de personalidade. Outras boas pedidas são o Azuki com gema (sim, feijão doce e gema salgada) e o pão de forma de leite, produção que desaparece logo da prateleira.

Azuki com gema (feijão doce e gema salgada) (Foto: Giuliana Nogueira)

Bori Café

Café bem cuidado também não falta na região, aberto em 2020 em plena pandemia o Bori Café fica na Rua São Joaquim 293 onde, sem excessos e com muita qualidade, a barista Paula Chang serve em copinho de papel para take away ou consumo ali mesmo no balcão, espresso, coado, cappuccino ou Bori Chá, o tradicional chá de cevada coreano.

Para quem não quer sair de casa, duas opções que atualmente seguem só com delivery e retirada:

Oyako Tsukemono atende apenas por delivery e oferece conservas e os famosos onigirzarus (sanduíche de arroz embrulhado em alga com recheios como o de milanesa de porco ou o de croquete cremoso de milho)(Foto: Giuliana Nogueira)

Kidoairaku

O Kidoairaku é aquela comida de Izakaya que chega perfeitinha e extremamente bem feita. O restaurante que fechou as portas da antiga casa e reabriu em um espaço minúsculo ali mesmo na Fagundes, serve um dos melhores kares da cidade, e super bem servido, que pode ser pedido pelo link no instagram @kidoairaku_delivery.

Oyako Tsukemono

Já o Oyako Tsukemono sai da casa do Guilherme Uyekita, onde ele e sua mãe produzem apenas as terças, sextas e sábados deliciosos tsukemonos (conservas), onigiris e onigirazus. As receitas ancestrais passadas de pai pra filho são executadas por Guilherme desde agosto de 2020, quando perdeu o emprego. E a gente deu essa sorte dele ter descoberto na cozinha a forma de ajudar os pais em casa. Os onigirzarus valem por uma refeição. O sanduiche de arroz embrulhado em alga leva recheios como o de tonkatsu (milanesa de porco) com repolho roxo e maionese de wasabi ou o de croquete cremoso de milho que leva um pouquinho de manteiga no arroz e molho de tarê. O link para pedido também está no instagram @Oyako.Tsukemono.

*Sobre a Giuliana

Giuliana Nogueira (Foto: divulgação)

Além de dividir seu tempo entre os vinhos uruguaios e a fotografia de gastronomia, Giuliana Nogueira também peregrina pela cidade atrás de experiências gastronômicas carregadas de boas histórias. Deve ser porque ela passa outro tanto de horas trabalhando como psicóloga no seu consultório, além de estar ansiosa para voltar a escrever (e viajar) sobre o Uruguai para o CNN Viagem & Gastronomia.


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