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Uma jornada pelos vinhedos: a classificação dos vinhos de Bordeaux

Detentora da maior área de vinícolas da França, Bordeaux produz vinhos reconhecidos mundialmente. Conhecer a produção e mergulhar na sua história é uma oportunidade única

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

Bordeaux, França

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De um jeito ou de outro, Bordeaux sempre nos leva ao vinho. Seja com o museu do vinho – o La Cité du Vin -, com as refeições nas tradicionais brasseries regadas à generosas taças da bebida ou ainda em seus renomados vinhedos, uma coisa é certa: mais do que degustá-lo, celebramos sua história e apreciamos as uvas e as pessoas por trás da cuidadosa tradição de se fazer vinho na região.

Carregada de história por todos os cantos, Bordeaux divide-se em importantes sub-regiões produtoras, com seus encantadores vilarejos e comunas que plantam, cuidam e engarrafam os melhores vinhos do mundo. É nas redondezas que ficam os famosos Châteaux – que aqui são os produtores, as vinícolas propriamente ditas.

A história diz que a maioria dos vinhedos ficava no entorno destas imponentes construções, em que as vinícolas acabaram sendo batizadas com seus nomes. Assim, uma das grandes riquezas deste pedaço da França é descobrir o cotidiano daqueles por trás dos rótulos mais ilustres do mundo.

Mergulhar nas paisagens estonteantes dos vinhedos, nos sabores, nos aromas e entender um pouco do processo de se fazer um bom vinho à moda de Bordeaux é deixar nossos sentidos nos guiarem para um dos melhores lados da vida. E nossa relação com o vinho deve ser esta: a de nutrir a alma.

Já com sede? Antes de embarcar comigo pelos vinhedos mais charmosos da região devemos conhecer um pouco dos motivos que levam Bordeaux a produzir os melhores vinhos do mundo e também seus complexos – mas igualmente interessantes – sistemas de classificação.

Os vinhedos de Bordeaux

Qualidades excepcionais do clima e do solo, vinícolas centenárias e tradição são algumas das receitas que colocam os vinhos de Bordeaux entre os melhores e mais caros do mundo. Permeados por grandes histórias e solos férteis para o crescimento das uvas, os vinhedos ficam nas comunas e vilarejos das sub-regiões de Bordeaux.

Estas sub-regiões são divididas de acordo com sua localização em relação ao Estuário de Gironde, podendo ficar na margem esquerda ou direita – cada uma com diferentes produtores e características dominantes do solo.

Comecemos pela margem esquerda: é nela que há a predominância da varietal Cabernet Sauvignon – com blend de outras uvas no produto final. O solo desta margem é abundante em cascalho, o que faz com que a drenagem de água seja favorável para as raízes. As uvas são menores, mais concentradas e de maior complexidade.

A margem esquerda é mais fria por sua proximidade com o Oceano Atlântico, fator que auxilia a manter a acidez da uva e garante um envelhecimento mais longínquo na garrafa. As sub-regiões de Médoc, Graves e Sauternes & Barsac ficam nesta margem.

Já a margem direita é conhecida por ter a varietal Merlot como predominante. Aqui o solo é mais argiloso e rico em calcário. Assim, a água é rapidamente drenada mas é mantida na profundidade, ajudando nos períodos mais quentes – as uvas amadurecem mais rápido e possuem menor acidez. As sub-regiões de Saint-Émilion e Pomerol, por exemplo, ficam nesta margem.

No geral, alguns números nos impressionam: são mais de 112 mil hectares de vinhas em Bordeaux e cerca de 55 mil empregos ligados ao setor. A produção anual gira em torno de 5 a 6 milhões de hectolitros – cerca de 700 milhões de garrafas, sendo 88% vinho tinto e 12% de vinho branco, segundo dados do Conselho de Vinhos de Bordeaux (Conseil Interprofessionnel du Vin de Bordeaux).

As classificações dos vinhos

Os vinhos de Bordeaux seguem classificações que, num primeiro instante, podem parecer complexas. Mas, uma vez entendidas, podemos degustar também um pouco da história do vinho bordalês e sua contribuição para o mundo.

Elas hierarquizam os rótulos e sistematizam o suprassumo da produção na região, ou seja, os nomes por trás do que há de melhor na tradição. Vale destacar que o próprio site oficial dos vinhos de Bordeaux ressalta que “um vinho ou denominação ainda pode ser excelente mesmo que não faça parte destas classificações”.

A mais conhecida delas e que persiste até os dias de hoje quase que intocável é a Classificação dos Vinhos de Bordeaux de 1855. Ela surgiu após o Imperador Napoleão III pedir para que cada região vinícola da França estabelecesse uma classificação para apresentar na Exposição Universal de Paris – evento realizado em prol de exibir o melhor do país para o mundo.

Os vinhos de Bordeaux foram então classificados de acordo com a reputação dos Châteaux e o preço das garrafas, que na época estavam diretamente ligados ao fator da qualidade. Além desta, outras classificações de outras sub-regiões produtoras surgiram com o tempo, como Saint-Émilion (na margem direita) e Graves, abrangendo outros produtores que igualmente se destacavam – e se destacam – na produção de vinhos.

Classificação de 1855

À época, cada château deveria apresentar seu vinho mais caro para a Exposição. Assim, com apenas um vinho classificado, a vinícola já garantia um título vitalício – que funciona como uma garantia de qualidade.

São, ao todo, 61 produtores classificados – todos localizados na margem esquerda, com 60 châteaux do Médoc e apenas um de Graves, que foram divididos em cinco categorias, começando pelos Premiers Grands Crus Classés (os Primeiros) e indo até os Cinquièmes Grands Crus Classés (os Quintos).

Quase que imutável, a lista sofreu raras mudanças ao longo destes 166 anos. O Château Cantemerle foi incluído na lista em 1856, mas a mudança mais significativa até hoje foi a escalada do Château Mouton Rothschild de Deuxièmes (Segundo) para Premier Grand Cru Classé em 1973, um feito inédito na história devido aos esforços e influência política e comercial do Barão Philippe Rothschild.

Hierarquia dos Grand Crus Classés de 1855:

  • 5 Premiers Grands Crus Classés: Château Lafite-Rothschild (em Pauillac); Château Latour (Pauillac); Château Mouton-Rothschild (Pauillac); Château Haut-Brion (Graves) e Château Margaux (Margaux).
  • 14 Deuxièmes; incluindo o Château Gruaud-Larose (em Saint-Julien) e o Château Cos-d’Estournel (Saint-Estèphe)
  • 14 Troisièmes; incluindo o Château Palmer (em Margaux)
  • 10 Quatrièmes
  • 18 Cinquièmes; incluindo o Château Cantemerle (em Haut-Médoc) e o Château Lynch-Bages (Pauillac)

Para saber os nomes de todos os Châteaux, confira a lista oficial de Bordeaux. Importante ressaltar que apenas vinhos tintos estão presentes nesta classificação e que somente os classificados como Premiers destacarão no rótulo que são os Primeiros.

Menos comentada que a sistematização acima, os vinhos brancos doces da sub-região de Sauternes & Barsac também foram classificados no mesmo ano de 1855, desta vez em três níveis. São 26 produtores divididos entre Premier Cru Supérieur (apenas o Château Château d’Yquem está nesta posição); os Premiers Crus (11 Châteaux); e Deuxièmes Crus (15 Châteaux).

Classificação de Saint-Émilion

A comuna de Saint-Émilion fica na margem direita e a classificação de seus vinhos foi criada em 1954. Ela é revisada a cada dez anos, com a sistematização mais recente ocorrida em 2012. Ao todo são 82 produtores divididos em duas categorias: Premiers Grands Crus Classés e Grand Crus Classés.

Os Premiers são ainda distinguidos entre Premiers Grands Crus Classés “A” e Premiers Grands Crus Classés “B”. Mas uma curiosidade: os categorizados como “B” não trazem no rótulo a letra, diferente dos classificados como “A”, sendo nomeados apenas como Premiers Grands Crus Classés.

O topo desta hierarquia é ocupado atualmente pelos Châteaux Ausone, Cheval Blanc, Angélus e Pavie.

Classificação de Graves

Criada em 1953, esta classificação dos vinhos da sub-região de Graves não possui hierarquia e também não há revisão. Ao todo são 16 produtores da região classificados como Crus Classés de Graves, contendo vinhos tintos e brancos.

Aqui há um fato curioso: o Château Haut-Brion é o único listado em duas classificações, aparecendo tanto na de Graves quanto nos Grands Crus Classés de 1855.

Crus Bourgeois e Artisans

Outras duas sistematizações em Bordeaux dão conta de classificar os vinhos que ficaram de fora. Os Crus Bourgeois são baseados em critérios de produção, valor e qualidade dos vinhos tintos produzidos nas sub-regiões e comunas. A classificação é revisada todo ano no mês de setembro, em que cerca de 260 propriedades entram na lista.

Já a Crus Artisans contempla 36 vinícolas familiares, que são menores em tamanho e em escala de produção e dão conta de todo o processo: desde o plantio, a vinificação até a venda. Os nomes são revistos a cada cinco anos.

Por trás dos rótulos

Com todas estas classificações, o rótulo dos vinhos funciona como um concentrado de informações. Ele é como um “mapa do tesouro” para nós: é a partir de sua leitura que sabemos de onde o vinho vem, qual sub-região foi produzido e sua posição nas hierarquias.

Ele deve conter o nome da apelação de origem controlada (AOC), ou seja, de qual sub-região e comuna o vinho é feito, e a identificação do engarrafador, que corresponde ao nome do Château, a cidade e o país. Caso estiveram classificados de acordo com uma hierarquia, os vinhos levarão sua posição, como Premier Grand Cru Classé (no caso dos Châteaux na classificação de 1855); Premier Cru Classé de Sauternes (no caso dos Châteaux de Sauternes); Grand Crus Classés de Saint-Émilion (no caso da segunda classificação de Saint-Émilion); e por aí adiante.

E uma dica: busque pela frase “Mis en Bouteille au Château”, que quer dizer “engarrafado no château”. Isso nos dá a certeza de que as etapas de produção do vinho ficaram sob os cuidados do próprio vinicultor, o que nos garante degustar um terroir específico.


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