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    Como é estar lado a lado dos gorilas de Ruanda no Parque Nacional dos Vulcões

    Com respeito e em prol da preservação, observar os primatas de perto sem barreiras nas florestas densas do país é mais do que único: é transformador

    Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

    Parque Nacional dos Vulcões, Ruanda

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    Após algumas horas de caminhada floresta adentro, os primeiros vestígios aparecem: pedaços de bambus comidos e retorcidos indicam que os gorilas estão perto de nós. Mais alguns passos adiante e os sons dos primatas se fazem presentes. O coração acelera, a respiração fica ofegante e a emoção me contagia. De repente, estar lado a lado de uma família de gorilas se torna real – e a sensação de completar mais um sonho de minha vida é indescritível.

    Um dos passeios mais conhecidos de Ruanda, o trekking com gorilas é uma atividade que, hoje, envolve toda a comunidade do entorno e beneficia a preservação da fauna e da flora. Endêmicos das florestas tropicais da África Central, os gorilas das montanhas de Ruanda podem ser observados de perto nas matas do Parque Nacional dos Vulcões, no noroeste do país.

    O parque abrange oito vulcões, quase todos inativos, e faz divisa com a República Democrática do Congo e com Uganda ao longo de seus 160 quilômetros quadrados de área. É em meio a diversa flora que podemos ver os gorilas e os macacos-dourados e também nos hospedarmos no Bisate Lodge, exclusivo e surpreendente hotel cinco estrelas que nos ajuda na tarefa de avistar os primatas.

    O que é e como é feita a observação

    A caminhada entre os montes e florestas com o objetivo de contemplarmos os gorilas em Ruanda é feita nas montanhas Virunga, porção do Parque Nacional dos Vulcões. As montanhas são o habitat natural do gorila-das-montanhas, primata que se encontra na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) – o que indica risco de extinção.

    Outros mamíferos e aves convivem aqui, mas esta área do país tornou-se conhecida por ser a base dos estudos da zoóloga americana Dian Fossey, que se estabeleceu por aqui em 1967, fundou um centro de pesquisas e ajudou na preservação dos gorilas, deixando um legado seguido até hoje. Ela iniciou o processo de habituá-los à presença de observadores humanos para que pudéssemos vê-los de perto e documentar seus comportamentos.

    Apesar dos rumos com os gorilas serem promissores, a história é triste: ela foi assassinada em 1985 e está enterrada em uma cova perto do centro de pesquisa e entre alguns primatas.

    Porém, o projeto de preservação é continuado por meio de sua fundação, o Dian Fossey Gorilla Fund e, uma vez aqui, reconhecemos que ela estava certa: na década de 1970, havia cerca de 300 gorilas na área. Agora, os últimos estudos apontam que já são mais de mil indivíduos, os quais são beneficiados pelo turismo – em que nós, visitantes, ajudamos a financiar sua conservação.

    Pagamos uma taxa de permissão bem alta para vê-los – em média US$1.500 por pessoa – que é totalmente revertida para a preservação destes primatas e também para as comunidades e fazendeiros do redor. As caminhadas e observação sempre são feitas de forma muito respeitosa na companhia de guias locais autorizados, já que devemos preservar nossa vida e a dos gorilas.

    Preparativos

    Quartos do Bisate Lodge possuem vistas para o Monte Bisoke, um dos vulcões ativos nas montanhas Virunga / Crookes and Jackson/Wilderness Safaris

    Ainda no Bisate Lodge, a aventura começa bem cedo: minutos antes do sol nascer já vestimos roupas específicas para a caminhada. São várias jaquetas (inclusive impermeáveis), luvas e botas, todas necessárias para fazermos camadas de proteção, já que corremos o risco de nos molharmos na chuva ou de encostarmos numa planta que pode queimar nossa pele.

    Com ansiedade batendo no peito, saímos em um carro 4×4 em direção à sede do Parque Nacional dos Vulcões, onde aferimos a temperatura, checamos as papeladas e somos informados das regras e protocolos. Aqui também é o local onde os guias se reúnem com o chefe para negociar qual itinerário seguir de acordo com o perfil do grupo, e onde discutem as melhores posições e a família de gorilas que tentaremos observar.

    São mais de 40 famílias de gorilas na região, sendo 12 delas para o lado de Ruanda – a família que encontramos foi a Kwitonda, na vegetação densa do vulcão Muhabura. Somos levados então até a base do monte, onde, antes de adentrarmos na casa dos gorilas, mais orientações: são repassadas direções e informações importantes, como condutas no meio da floresta e nosso comportamento perante os gorilas.

    Assim, adentrar a floresta ao encontro dos primatas leva em conta mais do que uma preparação física: envolve planejamento, protocolos, e, claro, muita vontade e ansiedade. Avistá-los é o objetivo final, mas todo percurso até lá, entre cenários rurais e as características da floresta tropical, também valem a pena – e aumentam a adrenalina.

    O aguardado encontro com os gorilas

    Daniela Filomeno no trekking dos gorilas, caminhada que ocorre com supervisão de guias pelas florestas do Parque Nacional dos Vulcões / CNN Viagem & Gastronomia

    As caminhadas nas florestas podem ter duração variável, de 30 minutos a quatro horas ou até mais, em altitudes entre 2.500 e 4.000 metros. Outros guias e carregadores nos acompanham no trajeto, e se dispõem a carregar mochilas e câmeras e oferecem ajuda no meio do percurso.

    Após algum tempo, saímos da base do vulcão e entramos em direções ainda mais altas rumo à floresta bem densa. Alguns dos “guardiões dos gorilas”, que nos acompanham na aventura, vão abrindo a mata com um facão. Durante o caminho podemos tirar as máscaras, mas somos recomendados a colocá-las novamente quando chegamos próximos dos gorilas, já que o DNA deles é 98% parecido com o nosso. É uma forma de nos protegermos e protegê-los também.

    Aos poucos, alguns vestígios de sua presença: bambus comidos e retorcidos no chão. De repente, barulhos característicos dos primatas. É hora de colocar a máscara e nos aproximarmos respeitosamente. O coração fica na boca!

    É inevitável não conter o sorriso e a emoção quando os avistamos e chegamos pertinho deles. Há uma família, até com bebês, que ficam bem próximos de nós. É neste momento que eles nos olham nos olhos e fazem alguns barulhos. Devemos então abaixar a cabeça em sinal de respeito e deixar que nosso guia dê um bom dia característico, com outros sons e sinais corporais. Assim, o gorila maior deita e relaxa, baixando a guarda e nos deixando confortáveis.

    É impressionante essa comunicação por meio de sons e linguagens, quando tanto os humanos quanto os primatas se entendem. As expressões no rosto deles com olhar fixo é de arrepiar. É importante lembrar que não há barras, cercas ou muros: os animais não foram colocados aqui, eles estão na casa deles e podemos nos comunicar com sinais de respeito. Afinal, quem manda são eles.

    A partir disso, ver os pequeninos brincar com os pais (havia até um bebê de cerca de seis meses) é encantador. Enquanto o maior estiver deitado, toda a família se sente segura – um ótimo sinal. Engraçado notar também que os adolescentes batem no peito e se mexem a todo momento.

    Em determinada hora, avistamos e chegamos mais perto de outros membros da família, que tem cerca de 20 indivíduos. Estávamos no caminho dos gorilas quando eles quiseram passar, e tivemos que mover as pernas e dar espaço enquanto passavam bem rente ao nosso corpo de maneira rápida. Definitivamente um misto de medo com fascinação.

    Depois de horas na floresta, voltamos para o hotel perplexos com tudo que vivemos. Tudo foi muito especial para mim, já que era uma experiência que sempre quis ter. Acredito que as melhores experiências da vida são aquelas que nos transformam, e estar em Ruanda junto dos gorilas foi definitivamente uma delas. Fui embora marcada pelo turismo que envolve e beneficia a comunidade – e com ânimo de voltar.


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