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Da Liberdade ao karaokê: a cultura japonesa em São Paulo

Maior reduto de japoneses e descendentes fora do Japão, o Brasil é como um segundo lar para os que deixam seu país de origem. E é na capital paulista que encontramos uma efervescência cultural japonesa surpreendente

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

São Paulo

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São mais de 110 anos de história desde que os primeiros japoneses pisaram em solo brasileiro em 18 de junho de 1908. Vindos de sua terra natal, eles desembarcaram no Porto de Santos, no litoral sul de São Paulo, e foi a partir daí que a trajetória dessa comunidade milenar começou a ser escrita no estado paulista e a se espalhar país afora.

De lá para cá, o Brasil tornou-se o segundo lar daqueles que deixam seu país de origem em busca de novos começos, criando assim uma efervescência cultural admirável. Atualmente, nosso país abriga a maior população de origem japonesa fora do Japão: a estimativa aponta que são mais de 1,5 milhão de japoneses e seus descendentes por aqui.

Portanto, podemos afirmar que, sim, o Japão está logo aqui. Cosmopolita, São Paulo concentra uma riquíssima cultura japonesa por meio das pessoas, da gastronomia, dos produtos, da música, e se garante como uma passagem, digamos, mais barata e rápida para o país asiático.

E uma das maneiras mais sólidas de refletir e de respeitar os costumes e os hábitos de um povo, mirando honrar sua tradição, acontece dentro de espaços culturais. Para nossa sorte, há uma variedade pujante deles na capital paulista.

Digo que temos que aprender muito com a cultura japonesa. Há toda uma filosofia aplicada na arte, na técnica, na vivência. Interessante notar que o zelo que possuem com a hospitalidade é parecido com o nosso jeito brasileiro e que o contraponto entre a mistura de descendentes e a perseverança em manter viva uma cultura milenar é abraçada de forma formidável.

Que tal darmos um pulinho no Japão sem ir muito longe? Focada em mergulhar de maneira leve e respeitável num pedacinho dessa cultura, me acompanhe pelos endereços mais interessantes de São Paulo que traduzem bem o espírito tradicional do país ao mesmo tempo em que se misturam com toques contemporâneos e uma dinâmica brasileira:

Bairro da Liberdade

Bairro da Liberdade, em São Paulo
Tradicionais lanternas suzuranto no bairro da Liberdade, em São Paulo, principal reduto da comunidade japonesa na cidade/Foto: Unsplash

É o ponto de partida para uma imersão na cultura japonesa em várias de suas facetas: aqui vemos de perto suas tradições, seus costumes, sua culinária, sua língua. A não ser por algumas placas em português e a mistura entre pessoas das mais diversas localidades, caminhar sem compromisso pelas ruas cheias de lanternas suzuranto (as luminárias orientais), pode facilmente nos levar a pensar que estamos em algum centro urbano do Japão.

Podemos dizer que a Liberdade é quase um pedacinho do país do sol nascente, pois aqui está a maior concentração de japoneses e seus descendentes na cidade. Vagar pelo bairro, então, é um exercício antropológico: é perder-se e encontrar-se, sentir aromas, ouvir diferentes sotaques e deixar ser tomado por outras perspectivas.

Um dos melhores locais para começar a desbravar o bairro é a rua Galvão Bueno, que concentra uma grande variedade de restaurantes, vendinhas e comércios tradicionais, assim como lojas de artigos e outras relacionadas a tudo do mundo dos animes – os desenhos animados japoneses.

Além de inúmeros restaurantes típicos (e outros nada óbvios), as ruas do bairro abrangem lojas que vendem produtinhos industrializados do país asiático, como balas, docinhos, salgados, refrigerantes e objetos. É uma perdição! E também uma viagem a um Japão que remete à infância. Vale a pena entrar em todas e ficar maravilhada com as cores e com os sabores inusitados.

Muito admiradas, as louças japonesas também estão presentes: uma das lojas é a Tenma-ya, que vende utensílios de cozinha em sua maior parte vindos diretamente do Japão. É surpreendente saber que ali há louças pintadas à mão, mantendo uma tradição fascinante.

Espaço de trocas, de expertises, de sabores e de aromas, a Feira da Liberdade é imperdível. Ideal para passar um tempo junto dos familiares, ocorre aos finais de semana, durante a manhã e a tarde, e reúne vendinhas que misturam artesanato e gastronomia.

É uma ótima maneira de degustar algumas comidinhas tradicionais, como o ebiyaki (bolinho de camarão), guiozas, yakisobas, tempurás, entre outros, e ver de perto algumas manifestações culturais, como artistas desenhando os kanji, ideogramas japoneses que possuem seu próprio significado. Se der sorte, até algumas apresentações ocorrem ali periodicamente.

Nas imediações da rua São Joaquim fica o Museu da Imigração Japonesa, totalmente dedicado a preservar e transmitir a história da imigração às gerações futuras. Ele ocupa três andares do prédio do Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo) e possui um relevante acervo com mais de 97.000 itens pertencentes aos imigrantes japoneses, entre documentos, fotos, jornais, livros, revistas, filmes, quadros, utensílios domésticos e kimonos.

O museu também conta com um sistema de busca que permite a descoberta de uma série de informações a respeito de parentes imigrantes, como data de chegada e de saída, local de chegada, entre outros. O interessante sistema pode ser acessado tanto no museu quanto de maneira online.

Vale ressaltar que, assim como o nome prega, hoje em dia o local possui, de fato, uma liberdade: há uma diversidade cultural que abrange não somente os japoneses, mas também tailandeses, chineses, sul-coreanos e outros povos, sendo quase que um portal de extrema relevância na cidade para uma diversidade cultural impactante. É um local colorido, cheio de sabores e, mais importante, de saberes.

Japan House

japan house
Biblioteca da Japan House, no interior do centro cultural, que tem como objetivo difundir a cultura japonesa no principal centro econômico da América Latina/Foto: Wikimedia Commons

Quem vê a esbelta fachada de madeira hinoki em meio às gigantescas construções da Avenida Paulista pode pensar que a Japan House é um museu ou uma galeria de arte. Porém, ela é mais do que isso: é um centro de cultura japonesa.

Por fora e por dentro, a elegante construção – inaugurada em 2017 pelo governo japonês – traça uma interessante conexão com um Japão contemporâneo que não perdeu de vista suas origens. As próprias madeiras usadas do lado externo, projeto do consagrado arquiteto Kengo Kuma, nos trazem a ideia de uma mini floresta tradicional em meio à selva de pedra que é São Paulo.

Uma atração em si, a Japan House foi concebida pelo governo japonês como uma forma de transmitir a um grande número de pessoas a cultura e a tradição do país – uma maneira de estabelecer vínculos, diálogos e de gerar novas perspectivas. E não à toa São Paulo foi escolhida para ser uma de suas sedes, por ser o principal polo econômico da América Latina e por abrigar a maior colônia japonesa fora do Japão.

Além da capital paulista, Los Angeles e Londres foram outras cidades do mundo a receber o centro cultural, que promove exposições temporárias, possui uma biblioteca, lojinha de artigos, café e restaurante – o Aizomê, da chef Telma Shiraishi, que segue a proposta da casa de mostrar a contemporaneidade e a diversidade do Japão.

É um passeio superagradável e uma chance de entrar em contato com um lado moderno de uma cultura que transborda filosofias e muito zelo em tudo que se propõe a manifestar. De quebra, estar na Japan House é estar na Paulista, um dos endereços mais emblemáticos da cidade e do país. São dois passeios em um!

Pavilhão Japonês

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Daniela Filomeno em frente ao Pavilhão Japonês, no Parque do Ibirapuera, que transmite uma atmosfera bucólica e a potência da tradição japonesa/Foto: CNN Viagem & Gastronomia

Um dos cartões-postais de São Paulo, o Parque do Ibirapuera recebe milhões de pessoas por ano, mas poucas sabem que em meio aos jardins próximos ao Lago das Garças há um antro de calmaria.

No meio do parque urbano fica o Pavilhão Japonês, imponente construção inspirada no Palácio de Katsura, antiga residência de verão do Imperador em Kyoto. Foi construído aqui pelo governo japonês junto da comunidade nipo-brasileira e inaugurado em 1954, a tempo das comemorações dos 400 anos da fundação de São Paulo.

Nele, há o emprego de materiais e técnicas tradicionais japonesas: do chão ao teto, tudo foi trazido do Japão de navio, como as pedras vulcânicas do jardim, a lama de Kyoto que dá textura às paredes e as madeiras. Mas, logo na entrada, uma poesia chama minha atenção. Através dela, podemos sentir um pouco do sentimento de gratidão que tanto marca a cultura japonesa.

Ela começa assim: “Feliz ao sentir o forte amplexo deste país hospitaleiro, cujo céu imenso onde brilha o cruzeiro do sul e a pálida lua […]”.

Impactada pela mensagem, a arquitetura também nos transmite ideais parecidos. O edifício principal se articula em um salão nobre e algumas salas anexas, jardim e um encantador lago de carpas – que abriga mais de 300 delas e tem capacidade para 100 mil litros de água. O Salão de Exposição conta ainda com peças originais e algumas réplicas de “tesouros japoneses”, que representam linguagens artísticas e artesanais de diferentes períodos.

Detentor de uma bem-vinda atmosfera bucólica, ele é um dos raros pavilhões fora do Japão a manter características em bom estado de conservação – tanto física quanto culturalmente. Tranquila, a visita pode ser feita de quinta-feira a domingo e feriados, das 10h às 17h.

Tokyo

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Daniela Filomeno na Tokyo, espaço de entretenimento no centro de São Paulo que possui karaokê/Foto: CNN Viagem & Gastronomia

Próximo a edifícios icônicos do centro da capital e pertinho do badalado restaurante A Casa do Porco, a Tokyo ocupa nove andares do Edifício ABC, no número 110 da rua Major Sertório. A placa vertical na fachada da construção com o nome “Tokyo” já dá a sensação de sermos transportados para um Japão futurista, daqueles com muitas luzes neon em ambientes urbanos centrais.

Mistura de bar, restaurante, balada e karaokê, o negócio funciona como um espaço de entretenimento, em que os últimos andares encontram um agito que é a cara de São Paulo – e de inspiração japonesa. A mistura das luzes neon com aspectos orientais remete a uma modernidade jovem do Japão, com uma atmosfera amigável.

Dentro do local, uma das atrações principais na Tokyo é o karaokê. Por aqui, a modalidade chegou junto da imigração japonesa e se popularizou décadas mais tarde, ganhando as ruas de São Paulo. Assim, que tal soltarmos a voz?

Ficam disponíveis para o público salas privativas de karaokê (há também um espaço coletivo para a tarefa), restaurante com comidinhas asiáticas, bar que serve bons drinks, pista de dança e, lá em cima, um rooftop – perfeito para apreciar a exuberante vista para o centro, com o Edifício Itália e o Copan logo em frente, e ótimo para tirar fotos para as redes sociais.


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